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Rotinas visuais e TEA

De alguns anos para cá, os professores têm sido orientados a elaborar e expor para seus alunos uma rotina diária. Esta deveria conter as disciplinas na ordem na qual seriam ensinadas durante o dia letivo. No meu caso em particular, gostava de especificar também a atividade de acordo com cada uma delas. Para mim, era importante que o estudante obtivesse mais que uma visão geral da aula.

Ela é um recurso que auxilia a criança típica na leitura, traz segurança por conta da previsibilidade, além de ensiná-la que uma tarefa bem feita requer organização. E as etapas sendo cumpridas coerentemente trazem aprendizados que vão além das matérias escolares convencionais.

Beneficiam a todas as pessoas. Quando registramos uma lista de tarefas para cumprir durante o dia, estamos usando a rotina para organizar nosso tempo, além de estabelecermos o que nos é prioridade naquele período. Podem se apresentar tanto de forma escrita quanto visual. Distintas ou juntas, são organizadas e construídas de acordo com um contexto e objetivo final.

No caso da pessoas com TEA, a rotina visual é um instrumento que lhe possibilita uma série de benefícios. Ela promove previsibilidade, o que para o TEA funciona como um regulador da ansiedade. Organizada de maneira sequenciada e clara, auxilia na realização de atividades e na transição para a seguinte.

Por serem visuais facilitam a leitura, pois devem conter ilustrações reais, com imagens mais simples, somente com elementos essenciais para a realização de cada tarefa. Lembrando que num ambiente carregado de informações, o indivíduo com TEA tem dificuldade de processamento sensorial; logo se uma imagem contém muitos elementos dentro de um contexto, a pessoa tende a ficar ansiosa e confusa. Assim a rotina não cumprirá sua função.

É bom que seja elaborada com referências reais do ambiente que o TEA frequenta, seja escola, casa, clínica. Na medida do possível utilizar fotos. Antes de meu filho começar as sessões de musicoterapia, eu solicitei para o terapeuta que me enviasse as fotos do percurso no prédio até chegar a sala de terapia. Preparei uma pasta onde organizei a sequência e mostrei a ele, preparando-o para aquele dia. Desta forma, diminuiria a ansiedade frente a um ambiente estranho. Lembro-me também de um relato de uma pessoa que acompanhava meu filho na escola regular, quando ela me disse que ele já cumpria a rotina com uma certa rapidez. Ele sabia o que deveria fazer. E quando isto acontece é hora de aumentar um pouco a demanda, dando mais um passo na complexidade da atividade ou até mesmo inserindo outras.

A rotina também deve levar em conta as preferências da pessoa. Isto vai conduzi-la a um maior engajamento no cumprimento da tarefa. Conforme vai se adequando, seu repertório deve ser ampliado, pois a finalidade é que consiga generalizar comportamentos adequados em outros ambientes e contextos.

Com um formato prático, como um quadro, painel, livro, aplicativos, deve atender as necessidades do indivíduo atípico. Fotos da própria pessoa relacionada com a execução da atividade faz com que ela se perceba enquanto agente naquela situação. O uso de cartões de transição também desempenham um papel fundamental no controle da ansiedade e do estresse.

Outro benefício que a rotina traz é a gestão do tempo, que, para o indivíduo com TEA, está muito relacionada com a questão da espera. Ele vai aprendendo que tem tempo certo para cada coisa. Este é um trabalho lento, que deve ser realizado por quem cuida ou ensina, de forma tranquila e estruturada, para que não desencadeie comportamentos inadequados e disruptivos.

A comunicação também é estimulada através das rotinas visuais. Usei uma sequência visual quando meu filho aprendeu a usar o banheiro. No começo, eu lia, mostrava e explicava cada passo para ele. Depois de um tempo, ele cumpriu, olhou para a última figura e para mim dizendo “Muito bem!”, que era o elogio depois de realizada a tarefa. Então, imediatamente com alegria eu disse “Muito bem, filho!”. Atualmente ele não precisa mais destas figuras, conquistando independência nesta questão.

As rotinas visuais desenvolvem habilidades como organização, planejamento e até mesmo resolução de problemas. Figuras, recursos tecnológicos são grandes aliados, mas o trabalho de terapeutas ocupacionais tornam sua implementação mais eficaz.

Enfim, a rotina visual é a ferramenta com a qual tanto o cotidiano quanto a aplicação das terapias são organizados de maneira a contribuir para uma melhor qualidade de vida para a pessoa com TEA, possibilitando que ela vença desafios inerentes ao transtorno, quanto sua inclusão em grupos e atividades sociais.