
Processamento sensorial e TEA
Por Kátia Cristina Tavares Ribeiro
Pós graduanda em TEA pela Academia do Autismo
Professora de Educação Básica
Mãe de autista
Contato:
katiacristinatav@gmail.com
Muito mais do que compreender a relação entre sensibilidade e o comportamento da pessoa com TEA, é saber que as atitudes dos indivíduos típicos vão externar se há o acolhimento e cuidado que a pessoa necessita e se são aplicados de forma adequada. Nossos atos podem desempenhar influências positivas ou negativas, de acordo com a maneira como interpretamos os comportamentos do TEA.
É necessária muita observação, atentando-se para o ambiente e as informações ali presentes com as quais o atípico deverá lidar. Para o TEA, esta questão é muito relevante. Sons altos, excesso de imagens, determinadas texturas, odores e sabores têm o poder de desregulá-lo. O sofrimento causado por esta carga sensorial representa uma agressão para essa pessoa.
Existem oito sentidos envolvidos no processamento sensorial: visão, audição, tátil, olfato, paladar, sistema vestibular (equilíbrio, identificação de posições do corpo), propriocepção ( capacidade de perceber as partes do corpo) e interocepção (funções dos órgãos internos que indicam fome, sede, excreção…). Compreender estes sentidos facilita a identificação do prejuízo no desenvolvimento da pessoa com TEA, além da percepção mais específica do que precisa ser tratado. Cada comportamento então terá uma intervenção terapêutica adequada.
O desafio é grande para adaptar os ambientes, já que muitas pessoas tendem a entender o comportamento disruptivo como uma birra ou falta de limite de quem cuida. Isto constitui-se numa barreira para a inclusão, ainda mais porque estamos tratando de indivíduos que apresentam reações diferentes para um mesmo tipo de informação recebida. Estes devem ser ensinados a se relacionarem com o ambiente e as pessoas, mas com adequações que respeitem seus limites sensoriais. As alternativas oferecidas precisam ser resultado de análise do processamento sensorial do atípico, de forma particular. Conhecendo suas preferências é possível desenvolver atividades, projetos e gerenciar adequações. Em primeiro lugar, no entanto, deve estar a boa informação, precisa e confiável. Depois, o engajamento da sociedade. Embora aos mais próximos do TEA sejam atribuídas esta etapa inicial, quanto mais conhecimento da realidade, melhor é a expectativa de inclusão. Pequenas adaptações, como reduzir o volume de um rádio, oferecer alimentos com texturas e cheiros parecidos com aqueles que já fazem parte da dieta, apresentar rotinas visuais para manter a previsibilidade, até mesmo expressar com palavras mansas o amor e o cuidado com a pessoa com o Transtorno do Espectro Autista, já produzem resultados que mudam a trajetória do seu desenvolvimento. Detalhes importam e precisam ser considerados no processo.
Muitas vezes, mesmo nós que convivemos com pessoas com TEA, nos esquecemos de suas peculiaridades com respeito às questões sensoriais. Por isso, cada comportamento que não esteja adequado ao contexto, situação, ambiente, ou nos relacionamentos comunicativos necessita ser encarado como um sinal de que pode ser esta a razão pela qual uma atitude de fuga de um determinado lugar ou de uma demanda acontece, por exemplo.
Para tornar o assunto mais claro, vou listar algumas situações nas quais meu filho tem alteração de comportamento, lembrando que a presença de interesses restritos e repetitivos podem indicar quais as manifestações requerem um olhar mais atento.
Uma vez, ao passar numa loja de roupas, ele entrou em crise por conta do som alto. Queria atravessar a rua para se afastar para longe. Depois do ocorrido, eu não conseguia nem passar em frente à loja, mesmo que não houvesse nada tocando. Experiências desconfortáveis ocorrem com mais frequência atualmente quando o som do rádio, de outro celular ou pessoas conversando muito competem com o som do vídeo que está assistindo, sendo que ele mesmo deixa seu celular mais baixo. Já ocorreu de ficar irritado, até quando ele mesmo me pediu que lhe fizesse cócegas, revelando que o toque não é aceitável em determinadas partes do corpo. Costuma ser rígido na alimentação onde algumas cores servem de orientação sobre o que vai quer comer. Isso também acontece com cheiros. Aqui comecei a prestar atenção nos hidratantes, e agora procuro produtos com cheiro bem suave ou mesmo sem cheiro.
Uma das preocupações relevantes quanto ao processamento sensorial é sua hipossensibilidade à dor; quando se machuca apenas mostra a região afetada para ser limpa do sangue, por exemplo. Esta situação favorece a permanência de atitudes de auto regulação como bater em objetos e em si mesmo, de forma inapropriada e que pode machucá-lo dependendo da força aplicada.
Importante lembrar que tudo isso afeta os relacionamentos, causando prejuízos na comunicação, na convivência com as pessoas, na permanência em lugares que precisa frequentar, nas questões de auto cuidado, interferindo enfim, em sua qualidade de vida.
Para mudar esta situação, um trabalho adequado e bem objetivo deve ser realizado. A partir das informações sobre as dificuldades que cada pessoa com o Transtorno do Espectro Autista apresenta, é possível redirecionar seu comportamento, com intervenções progressivas, com apoio de profissionais qualificados e acreditando no potencial que todo ser humano tem em aprender.
É importante lembrar que todos nós somos seres sensoriais. As informações que recebemos do ambiente vão impactar nosso comportamento. De maneira geral evitamos aquilo que nos causa algum desconforto, mas temos a habilidade de buscar alternativas ou até mesmo de nos adaptarmos. O que nos diferencia dos indivíduos com TEA é a intensidade que estas informações exercem sobre eles, e na tentativa de regulação frente a este desafio seus comportamentos são externados de forma inadequada. Às vezes parecem até disruptivos, porém se prestarmos bastante atenção, perceberemos que a exposição prolongada aos estímulos por mais tempo do que para eles é suportável geram crises que causam sofrimento tanto para o TEA quanto para quem cuida.
Apesar de não ter cura existem estratégias para enfrentar os desafios do processamento sensorial, que também afeta o aprendizado. Procurar um tratamento de qualidade, que respeita as particularidades das pessoas com o Transtorno do Espectro Autista é a chave para a integração sensorial que elas tanto necessitam para se relacionarem da melhor maneira possível com o mundo que a cerca.






