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O Cristão e o compromisso com a Palavra

Dr. José Ribeiro Neto
Dr. José Ribeiro Neto logos

Uma análise contextual histórico-cultural-exegética de Jo 1.1-18

 

José Ribeiro Neto

Pós-doutorado no Departamento de Letras Orientais, USP

Doutor e Mestre em Estudos Judaicos e Árabes, USP

 

TEXTO: João 1.1-18

NO princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. 2 Ele estava no princípio com Deus. 3 Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. 4 Nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. 5 E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. 6 Houve um homem enviado de Deus, cujo nome era João. 7 Este veio para testemunho, para que testificasse da luz, para que todos cressem por ele. 8 Não era ele a luz, mas para que testificasse da luz. 9 Ali estava a luz verdadeira, que ilumina a todo o homem que vem ao mundo. 10 Estava no mundo, e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o conheceu. 11 Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. 12 Mas, a todos quantos o receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no seu nome; 13 Os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. 14 E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade. 15 João testificou dele, e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: O que vem após mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu. 16 E todos nós recebemos também da sua plenitude, e graça por graça. 17 Porque a lei foi dada por Moisés; a graça e a verdade vieram por Jesus Cristo. 18 Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.

 

- O objetivo do estudo teológico é o aprofundamento na Palavra de Deus, para que os obreiros treinados “se apresentem diante de Deus aprovados e que manejem bem a palavra da verdade” (II Tm 2.15).

- Ao invés de pregação, quero fazer algumas reflexões importantes para o entendimento do tema.

- É evidente que essa passagem tem uma extensão de conteúdo teológico que foge ao alcance desses poucos minutos que temos;

- Quero somente lançar algumas luzes para que os irmãos posteriormente se aprofundem nesse texto.

- Ao ler a Bíblia, tanto no AT, quanto no NT, é preciso entender a mente do autor, o que não é nada fácil, pois além de envolver o entendimento profundo das línguas originais, envolve o entendimento da forma do pensamento semítico subjacente;

- Por causa da distância histórica e das tradições interpretativas herdadas da teologia, muitas vezes, o nosso entendimento de certas passagens é ofuscado por preconcepções teológico-interpretativas;

- Uma leitura da Bíblia dentro das concepções da mentalidade moderna ou da mentalidade greco-romana é comum; não quero dizer com isso que o NT não tenha elementos greco-romanos, eles estão presentes nas figuras e metáforas da vida militar, esportiva e cultural romana;

- Mas ao contrário do que se pensava a algum tempo, a forma de judaísmo presente na mentalidade neotestamentária não é helenística, como se fosse uma forma de pensamento estranha ao judaísmo rabínico;

- Pelo contrário, mais e mais pesquisas têm demonstrado que a mentalidade, a exegese e a forma de pensamento expressam no texto grego neotestamentário é fruto de fontes comuns aos vários tipos de judaísmos presentes no primeiro e segundo século;

- O que antes parecia judaísmo helenístico, se provou ser fonte comum em Qumran e em textos judaicos antigos que têm a mesma forma de pensamento e figuras presentes nas páginas do NT.

- O que aconteceu, contudo, foi uma padronização de um tipo de judaísmo rabínico que fez questão de isolar as fontes que não lhe agradava, para patentear uma forma única de judaísmo, e associar qualquer outra forma a um judaísmo helenístico ou a um não judaísmo.

- Em resumo, o pensamento neotestamentário, apesar de escrito em grego koiné de vários coloridos diferentes, tem subjacente a sua forma de entender as Escrituras, a forma de pensar semítica judaica, e a utilização de fontes judaicas comuns às várias correntes judaicas da época do primeiro século, que incluíam: Qumran, os fariseus, os saduceus e o grupo cristão, que no primeiro século se viu como parte da herança cultural e religiosa judaica.

- As fontes comuns nesse emaranhado de partidos religiosos judaicos são: os targumim: textos aramaicos que traduzem a Bíblia Hebraica interpretando-a; os midrashim: textos homiléticos interpretativos que se utilizam dos textos da Bíblia Hebraica para trazer aplicações práticas ou teológicas; os pesharim: encontrados em Qumran, e que interpretam passagens do AT em aplicação às realidades da comunidade de sua época.

- Mas o que toda essa introdução tem a ver com o nosso tema: “o cristão e o compromisso com a palavra”

- Aconselha-se a começar a estudar o Evangelho de acordo com o que nos relata João pelo fim:

Estes, porém, foram escritos para que creiais que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em seu nome. (Joh 20:31 ACF)

- Está claro, então, que o relato joanino é evangelístico, para que a sua audiência, que nos inclui, tenha fé em Jesus, o Messias, Filho de Deus, o único capaz de dar a vida eterna ao homem.

- No capítulo 1, entretanto, esse Messias, é descrito como ο͑ λόγοϛ , que no grego significa ‘a palavra’, ‘o verbo’, ‘o dito’, ‘a declaração’, ‘a ordem, o comando’, ‘o relato’, ‘expressão’

- Como não será possível discutir o que é ο͑ λόγοϛ do ponto de vista grego, adiantemos para tentarmos entender o que João possivelmente está querendo expressar e como podemos aplicar esse ensinamento com o compromisso cristão com a palavra.

- As semelhanças da sintaxe de João 1.1 com a sintaxe de Gênesis 1.1, com um pouco de atenção, são evidentes, a ordem das palavras é idêntica e a substituição de אֱלֹהִים por ο͑ λόγοϛ também, dentre outras semelhanças.

- Propositadamente, o autor está relacionando os atos criadores de Gn capítulo 1 com o logos, mas não com o logos grego, e sim com o conceito hebraico de davar (דָּבָר), hokmah (חכמה) ou com o conceito aramaico de memra (ממרא (Gen 1:3 NFT)), o mais provável, contudo, é o conceito aramaico de memra’.

- As citações de dois targumim deixam essa possibilidade mais clara, só para citar dois textos:

O Targum Neofiti (séc. II d.C.):

Gn 1.1

מלקדמין בחכמה ברא דייי בחוכמתא ברא ייי שׁכלל ושׁכלל ית שׁמיא וית ארעא׃

Nas eras primevas, com a sabedoria (hokmah), criou YHWH a completude, e a completude dos céus e da terra.

Gn 1.3

ואמר ממרא דייי יהוי נהור והות נהור כגזירת ממריה׃

E disse a Memra de YHWH: faça-se a luminosidade e a luminosidade foi feita por sua Memra.

- A hokmah e a Memra do SENHOR não são meras pronúncias de sons e nem o conceito abstrato grego de sabedoria e palavra, mas dentro da metalidade semítica, a sabedoria é o ato concreto, dinâmico, diferente da concepção estática e abstrata grega.

- Assim também a davar e a memra do SENHOR são a manifestação da própria pessoa de Deus. Deus só se torna visível por meio de sua Palavra.

18 Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigênito, que está no seio do Pai, esse o revelou.

 

APLICAÇÃO PRÁTICA:

- Para encurtar e aplicar a passagem ao nosso tema:

- O crente tem de estar comprometido com a Palavra, pois a palavra é o próprio Jesus;

- Ele é o logos, o davar, a memra de Adonay;

- É por sua palavra que vivemos e nos movemos;

- A igreja católica diz que foi a igreja que formou a palavra;

- nós protestantes dizemos que foi a palavra que formou a Igreja;

- O liberalismo teológico abandonou a verdade e o poder da Palavra pela insignificância do humanismo acadêmico.

- O pentecotalismo distorcido abandonou a palavra pelo misticismo

- O neopentecostalismo trocou a palavra pela mensagem egocêntrica capitalista

- Quando esses todos deixam a Palavra, estão negligenciando o próprio Senhor Jesus

11 E vi o céu aberto, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele chama-se Fiel e Verdadeiro; e julga e peleja com justiça. 12 E os seus olhos eram como chama de fogo; e sobre a sua cabeça havia muitos diademas; e tinha um nome escrito, que ninguém sabia senão ele mesmo. 13 E estava vestido de uma veste salpicada de sangue; e o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus. (Ap 19.11-13 ACF).


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