
Alegre-se em Deus hoje! Não espere o futuro chegar ECLESIASTES 1.12-2.26
PR. JOSÉ RIBEIRO NETO
Pós-doutorado no Departamento de Letras Orientais, USP
Doutor e Mestre em Estudos Judaicos e Árabes, USP
http://lattes.cnpq.br/4869632914439114
SÉRIE DE MENSAGENS EM ECLESIASTES
_______________
TEXTO: ECLESIASTES 1.12-2.26
TÍTULO: Alegre-se em Deus hoje! Não espere o futuro chegar.
_______________
INTRODUÇÃO
- Existem muitos livros de autoajuda que irão te ensinar a alcançar a felicidade.
- Existem muitas filosofias antigas que procuravam o sentido da vida, dentre elas, uma até se parece muito com o que diz o Pregador.
- O epicurismo, uma filosofia helenística criada pelo filósofo Epicuro, nascido em Samos, e que viveu entre 342-270 a.C.[1]
- O objetivo da filosofia de Epicuro era atingir a aponia (ausência de dor), e a ataraxia (Ἀταραξία), a imperturbabilidade da alma
- Os estoicos também tinham pensamento parecido (fundado por Zenão de Cítio no início do século III a.C.), os principais pensamentos do estoicismo:
Virtude é o único bem e caminho para a felicidade;
Indivíduo deve negar os sentimentos externos;
O prazer é indiferente ao homem sábio;
Universo governado por uma razão universal natural;
Valorização da apatheia (indiferença);[2]
- Tanto o epicurismo quanto o estoicismo eram as autoajudas da filosofia antiga, e assim como as autoajudas, eram espécies de negação da realidade.
- O pensamento do Pregador não se encaixa nesses pensamentos, nem nas autoajudas modernas, pois, ao contrário delas, não nega a realidade, mas a enfrenta.
- Diferente do epicurismo, estoicismo e da autoajuda, a Bíblia não só diz que temos que aproveitar os bens da vida enquanto vivemos agora, mas que só podemos realmente aproveitar tudo o que temos e fazemos, se aproveitarmos tudo isso como dádiva de Deus.
Ilustr: As pessoas estão sempre adiando a felicidade, sempre projetando para o passado “retrotopia” ou para o futuro. Os mais velhos, como pensam que o futuro não tem mais nada para lhes oferecer, projetam a alegria para o passado, os ainda jovens ou não tão velhos a projetam para o futuro. Ah! Quando eu terminar o ensino médio. Ah! Quando eu terminar a faculdade. Ah! Quando eu arrumar um emprego. Ah! Quando eu casar! Quando tiver filhos! Quando menos filhos forem mais velhos! Quando meu marido se converter! Etc. etc. etc.
De acordo com Kaiser Jr.:
A conclusão a essa primeira seção é encontrada em 2.24–26: o propósito da vida não pode ser encontrado em nenhuma das próprias coisas boas em si mesmas neste mundo. Todas as coisas que chamamos de “bens” da vida – a saúde, a riqueza, as posses, a posição, os prazeres sensuais, as honras e o prestígio – escapam das mãos das pessoas a menos que as recebamos como um dom de Deus..[3]
- O homem não vive em infelicidade não só por que não sabe aproveitar a vida, ele vive em infelicidade por não aproveitar a vida como dádiva de Deus.
- A alegria não está em ter, fazer, aproveitar, ajuntar – tudo isso só terá sentido com a satisfação que vem de um Deus que abençoa a nossa vida.
_______________
AFIRMAÇÃO TEOLÓGICA: Não há qualquer sentido na vida sem o Senhor, e por isso devemos viver a alegria nas bênçãos diárias que o SENHOR nos dá.
ORAÇÃO INTERROGATIVA: como então podemos viver a alegria diária com as bênçãos do SENHOR?
SENTENÇA DE TRANSIÇÃO: Gostaria que meditássemos nesse momento sobre quatro maneiras de viver a alegria diária com as bênçãos do SENHOR:
_______________
1. PRIMEIRA MANEIRA DE VIVER A ALEGRIA DIÁRIA COM AS BÊNÇÃOS DO SENHOR:
DESFRUTRAR DO TRABALHO QUE TEMOS COMO DÁDIVA DE DEUS - VS. 1.12-15; 2.24
- No lugar de buscar o trabalho perfeito, o Pregador nos ensina que o trabalho é:
ה֣וּא׀ עִנְיַ֣ן רָ֗ע נָתַ֧ן אֱלֹהִ֛ים לִבְנֵ֥י הָאָדָ֖ם (esse negócio mau, essa tarefa má que Deus deu aos filhos dos homens).
- O Pregador poderia te ensinar a negação, então você vive uma ilusão de que não existe o mal.
- Ou a aceitação de que tudo é uma maravilha, a síndrome de Poliana, a menina que sempre via tudo do ponto de vista positivo, então você vive uma outra ilusão, de que tudo é bom.
- Não o Pregador nos ensina: o trabalho é duro, é pesado, é enfado da carne, tudo quanto há debaixo do sol:
“tudo vapor e aflição de espírito” (הַכֹּ֛ל הֶ֖בֶל וּרְע֥וּת רֽוּחַ) – pode ser entendido como “tudo é vapor e correr atrás do vento”ou tudo é vapor e “ansiedade do espírito”.
- Já se percebeu a íntima relação entre o Eclesiastes e Gênesis, que também diz:
Gn 3.17
E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida.
- Então o que a Bíblia está dizendo? O trabalho é ruim, é um fardo, uma imposição de Deus?
- Sim, a Palavra de Deus não nos ilude, mais uma vez nos confronta com a realidade de um universo decaído por causa do pecado.
- O pecado trouxe maldição e fardo como herança e por isso o trabalho debaixo do sol é só enfado e “ansiedade”, “aflição”, “correr atrás do vento”.
- Então viveremos infelizes? Não, viveremos conscientes de que não devemos colocar o nosso coração em nenhum trabalho debaixo do sol como se a nossa vida se resumisse nisso.
- A consideração do Pregador a respeito do trabalho está então em
Ec 2.24
Não é, pois, bom para o homem que coma e beba e que faça gozar a sua alma do bem do seu trabalho? Isso também eu vi que vem da mão de Deus.
- O trabalho só tem sentido quando entendido como vindo da mão de Deus.
Ilustr.: você percebe que estamos sempre descontentes com o nosso salário, nosso trabalho, até que somos mandados embora, perdemos o emprego, o salário, então nos arrependemos, sentimos falta doo trabalho que tínhamos.
Outro fato interessante: você percebe que as pessoas estão sempre trabalhando descontentes! Somos mal atendidos nas repartições públicas, nas lojas, pois as pessoas estão sempre descontentes com seus trabalhos, sempre infelizes, sempre esperando o fim de semana, as férias, a aposentadoria, sempre algo em um futuro que não existe.
- Somos infelizes por esperar a alegria em um trabalho que não temos ou em um descanso que também não temos, e na atual conjuntura, e nas futuras, esqueçamos a aposentadoria.
- Pesado, penoso, “trabalhoso”, mas que quando temos o Senhor como o centro de todas as coisas, encontraremos alegria no trabalho que temos e enquanto o tivermos nos alegraremos nele.
- Não é comodismo, é gratidão, e só os ingratos vivem infelizes.
- O Salmista também entende assim quando canta no
Sl 128.1–6
1 Bem-aventurado aquele que teme ao SENHOR e anda nos seus caminhos! 2 Pois comerás do trabalho das tuas mãos, feliz serás, e te irá bem. 3 A tua mulher será como a videira frutífera aos lados da tua casa; os teus filhos, como plantas de oliveira, à roda da tua mesa. 4 Eis que assim será abençoado o homem que teme ao SENHOR! 5 O SENHOR te abençoará desde Sião, e tu verás o bem de Jerusalém em todos os dias da tua vida. 6 E verás os filhos de teus filhos e a paz sobre Israel.
- Semelhantemente, o Pregador sabiamente nos ensina, o trabalho só tem sentido quando entendido como uma dádiva de Deus
_______________
2. SEGUNDA MANEIRA DE VIVER A ALEGRIA DIÁRIA COM AS BÊNÇÃOS DO SENHOR:
APLICAR A SABEDORIA QUE TEMOS - VS. 1.16-18; 2.12-17
- NO LUGAR SÓ REFLETIR SOBRE UM CONHECIMENTO QUE NÃO SE TEM, é preciso aplicar o conhecimento, a sabedoria que temos.
Ilustr.: um dos problemas da filosofia grega e ocidental é a muita reflexão e a pouca prática. No pensamento grego e ocidental o sábio é o que tem em sua mente decorado números, palavras, fórmulas, conceitos. Na filosofia oriental, sobretudo do mundo de sabedoria bíblica, o sábio é o que tem a capacidade de agir com sabedoria em questões práticas da vida.
- Os orientais, no geral, são mais pragmáticos, ou seja, entregam mais.
- Há muito problema em filosofar demais e praticar de menos, veja as leis brasileiras, são bonitas, parecem poemas, odes, épicos, mas na prática não funcionam, não pegam, não são praticadas.
- Se a casa está pegando fogo, você não pode meditar sobre as propriedades do fogo, sobre a fumaça, sobre a composição química da água, nem refletir, meditar, investigar sobre quem colocou o fogo, as causas do fogo, APAGUE LOGO O FOGO!
- Depois investigue, medite, reflita, filosofe.
- O Pregador tentou refletir, meditar sobre a sabedoria, sobre o conhecimento que adquiriu, viu que tudo isso também era vapor, era correr atrás do vento.
- Claro que é bom refletir, planejar, meditar, mas só a meditação pela meditação, só a filosofia pela filosofia é inútil.
Ilustr.: às vezes os alunos são tão ansiosos que querem estudar as disciplinas antes de ter as aulas, e enquanto estão estudando pedem sugestões de livros na área, perguntam se tem um outro curso de grego ou hebraico para fazerem, digo: tem esse livro que estamos estudando, tem esse curso que estaremos estudando nesse semestre, tem essa aula, esses alunos, essa biblioteca, esses professores, aproveitem esses todos, estude esses, façam esses exercícios. Não fazem nem esses e querem outros?
- Não reflita sobre o trabalho ideal, sobre a igreja ideal, sobre o conhecimento ideal, sobre a nova filosofia, nova lei.
- Use a sabedoria que Deus deu primeiro, use um talento que você tem e não os dez que você não tem.
_______________
3. TERCEIRA MANEIRA DE VIVER A ALEGRIA DIÁRIA COM AS BÊNÇÃOS DO SENHOR:
DESFRUTRAR DOS BENS QUE TEMOS - VS. 2.5-11, 2.24-26
- NO LUGAR DE SOMENTE AJUNTAR PARA DESFRUTRAR DO QUE AINDA NÃO SE TEM, desfrute do que você tem
Ilustr.: Já percebeu a quantidade de coisa que compramos e não utilizamos? Esses dias entrei com a Katarina numa dessas lojas japonesas e brinquei com ela que ali se vende coisas que nunca pensaríamos que alguém venderia e que nem sabíamos que precisávamos daquilo, mas alguém fez, alguém compra, mas pode ser que poucos utilizem.
- Livros que não lemos, objetos que ganhamos e nunca vamos utilizar, somos por natureza acumuladores, ajuntamos e não aproveitamos, sempre queremos mais, o mais novo, o mais atual, mas nunca aproveitamos nada.
Ilustr.: a Microsoft como boa empresa capitalista entendeu bem isso e ganha muito dinheiro nos vendendo o futuro sistema operacional que será melhor do que esse que já nos vendeu.
A Apple também, só que te impede de usar para sempre o sistema que já funciona muito bem.
Fabricantes de geladeira vivem mudando o gás dizendo que o anterior era pior, mas é tudo uma questão de domínio público.
- Versões novas da Bíblia prometem ser melhores, mas as melhores são as mais antigas.
- O mundo consumista capitalista parece dar certo por aprender vender a ilusão para um homem descontente com o que tem, que acha que a grama é sempre mais verde do outro lado da cerca.
- Salomão se coloca como um exemplo:
Ec 2.10–11
10 E tudo quanto desejaram os meus olhos não lhos neguei, nem privei o meu coração de alegria alguma; mas o meu coração se alegrou por todo o meu trabalho, e esta foi a minha porção de todo o meu trabalho. 11 E olhei eu para todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também para o trabalho que eu, trabalhando, tinha feito; e eis que tudo era vaidade e aflição de espírito e que proveito nenhum havia debaixo do sol.
- Ele ensina, não há vantagem, não há lucro, em somente ajuntar, em somente se alegrar de ter ajuntado.
- O tempo vai passar, alguns bens iremos conquistar, muitas vezes gastaremos toda a nossa vida para conquistar para depois constatar: “é só uma casa...”, “é só um carro...”, “é só vapor, é só correr atrás do vento”
- Sem o Senhor não há sentido nem proveito, sem Jesus tentaremos preencher o vazio do nosso coração, ajuntaremos sem aproveitar do que ajuntamos.
- O Pregador então conclui:
Ec 2.26
26 Porque ao homem que é bom diante dele, dá Deus sabedoria, e conhecimento, e alegria; mas ao pecador dá trabalho, para que ele ajunte, e amontoe, e o dê ao bom perante a sua face. Também isso é vaidade e aflição de espírito.
- Uma vida vazia não pode ser preenchida, os bens não podem preencher, o homem sem Deus recebe de Deus “trabalho”, “enfado”, ele amontoa e nada aproveita.
- Ao homem de Deus o Senhor dá o “trabalho” com todas as consequências da distorção do pecado, mas como tem o seu foco no próprio Senhor, pode então se alegrar do que tem.
_______________
CONCLUSÃO
Concluamos então com os ensinos do Pregador:
Não esperemos o futuro para encontrar uma alegria que não existe, nos alegremos hoje:
1. Com o trabalho que Deus nos deu, com corações gratos
2. Com a sabedoria que ele nos deu, mais ações, não só meditar, não só filosofar, agir.
Desfrutemos dos bens que temos, não só ajuntar, acumular, no lugar de nos frustrar depois de conquistar o que acharíamos que nos preencheria, nos alegrar no Senhor que dá aos justos enquanto eles dormem.
Para comprar o livro com todas as mensagens, clique na imagem abaixo ou no link:
BIBLIOGRAFIA CITADA:
[1]Julie giovacchini. Epicuro. Série figuras do saber. São Paulo: Estação Liberdade, 2019, p. 13.
[2]Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Estoicismo, acesso em: 24 set. 2020.
[3] Walter C. Kaiser Jr., Eclesiastes, org. Cláudio Antônio Batista Marra, trad. Paulo Sérgio Gomes, 1a edição., Comentários do Antigo Testamento (São Paulo, SP: Editora Cultura Cristã, 2015), p. 74.









