
A importância das línguas originais para a compreensão dos textos bíblicos
A importância das línguas originais para a compreensão dos textos bíblicos[1]
Dr. José Ribeiro Neto[2]
Introdução
Na mesma proporção em que valorizamos o evangelho, sejamos zelosos em segurar as línguas [bíblicas]. Pois não foi sem propósito que Deus fez com que Suas Escrituras fossem estabelecidas nessas duas línguas somente – o Antigo Testamento em Hebraico[3], o Novo em Grego. Agora, se Deus não desprezou-as mas escolheu-as sobre todas outras línguas deste mundo, então nós também deveríamos honrá-las sobre todas as outras. (Martinho Lutero. The Importance das Línguas Bíblicas. Tirado de: To the Councilment of All Cities in Germany That They Estabilish and Maintain Christian Schools” (1524)).[4]
1. As línguas bíblicas como veículo de compreensão da mensagem divina
A Bíblia é a mente do Altíssimo expressa em linguagem humana e se queremos entender a mente de Cristo precisamos entender a linguagem em que ela está expressa. As traduções da Bíblia permitem a todos o acesso ao conhecimento da vontade de Deus para o homem, suas lições, mandamentos, ações na história. Mas pelo fato de Deus ter escolhido as línguas originais (grego, hebraico e aramaico) como instrumentos de comunicação, são essas línguas que precisam ser entendidas para se entender precisamente o que o Senhor quis nos ensinar nas Escrituras.
Muitos fazem um uso errado das línguas originais, utilizam dela para demonstrar conhecimentos, ostentar status social, desenvolver públicos gentílicos quanto judaicos cristãos, contudo, por enquanto, só podemos especular.
Outros pensam ser desnecessário o uso dos estudos das línguas originais já que temos traduções confiáveis e muitos comentários exegéticos já foram feitos, basta consultá-los.
Há ainda aqueles que querem escolher o caminho mais fácil e dizem que muito estudo teológico não leva a nada, um discurso que na verdade esconde preguiça e desleixo com a aplicação e esmero na dedicação ao ministério.[5]
Mas se entendermos o estudo das línguas originais como necessidade de entendimento, com precisão, da mensagem divina, talvez nos apliquemos mais ao estudo e deixemos de lado as desculpas “esfarrapadas”. Então conheçamos, e prossigamos em conhecer ao SENHOR; a sua saída, como a alva, é certa; e ele a nós virá como a chuva, como chuva serôdia que rega a terra. (Os 6.3).
As línguas originais possibilitam um entendimento mais profundo da mensagem divina e um contato mais de perto com a cultura e pano de fundo histórico dos autores e leitores dessa mensagem, possibilitando assim uma maior facilidade de transmissão e aplicação dessa mensagem em nosso viver diário, em nossa pregação e ensino.
3. A compreensão das línguas bíblicas como instrumento apologético
É notório que as seitas se utilizam em larga escala das línguas bíblicas para defender suas ideias e falsos ensinos. Embora o uso que fazem dessas línguas seja ingênuo e desvirtuado, acaba por ser um instrumento para engano dos incautos e neófitos e algumas vezes até dos mais conhecedores e experientes, que desconhecendo as línguas originais também se deixam levar pelos argumentos dos líderes dessas seitas.
Quem nunca se deparou com um TJ à porta de sua casa utilizando-se dos “originais” para alegar que as nossas traduções estão erradas e a deles é a mais correta porque no “original” é assim ou assado[6]. Como uma grande parte das pessoas desconhecem esse tal “original” não têm como responder às alegações desses russellitas e a discussão pendem para o lado deles.[7]
Adventistas, discípulos de Yehoshua, homossexuais e espíritas[8] utilizam-se das línguas bíblicas para validar seus discursos contra a interpretação de textos feita pelos evangélicos. Percebe-se a falácia dessas seitas para tentarem encontrar subsídio para suas ideias heréticas. Fica evidente que os que não se dedicarem ao estudo das línguas originais estarão desarmados no debate e na evangelização de grupos sectários e em alguns casos serão até envergonhados.
4. A compreensão das línguas bíblicas como instrumento de ensino do Evangelho de Cristo
Todos os que ensinam Bíblia sabem das dificuldades de alguns textos e vez por outra nos sentimos constrangidos pelos alunos a responder questões a respeito do significado de certas passagens obscuras ou polêmicas. O conhecimento da hermenêutica ajuda a resolver grande parte dos problemas, mas uma hermenêutica sem as línguas originais é uma hermenêutica “caolha”, resolve alguns problemas e às vezes cria outros dois, como no mito grego da hidra.
A hermenêutica com o conhecimento das línguas originais ajudanos a minimizar os problemas de interpretação[9] e a resolver algumas dúvidas de nossos alunos na Escola Dominical ou em qualquer tipo de ensino.
Temos hoje uma infinidade de versões da Bíblia, alguns acham um avanço na compreensão dos textos bíblicos, eu creio ser um problema para os professores e pastores. A falta de concordância nas versões torna difícil o ensino na igreja. Quem nunca teve algum tipo de problema com algum aluno dizendo: “pastor, na minha Bíblia está diferente.” É quando nos lembramos da necessidade de ter estudado as línguas originais.
MOREIRA (2009, in: http://teo-filo-lit-wm.blogspot.com/2009/07/porque-estudar-as-linguas-biblicas.html[10]) faz uma importante reflexão sobre essa questão:
A primeira razão é porque, existindo mesmo muitas e boas traduções, quando elas diferem entre si, como se saberá com precisão qual delas reflete melhor o texto original? Isto não é simplesmente um assunto que se resolva com uma votação para que a escolha da melhor tradução fique à mercê de uma maioria. Uma comunidade cristã espera que o seu líder esteja habilitado para ajudá-la a compreender o texto. Daí a necessidade do exegeta saber avaliar qual a melhor ou melhores traduções.
Cada dia mais isso é uma verdade, em um mundo de alta tecnologia e de muitos avanços em todas as áreas da ciência, o crescimento da quantidade de informação disponível e a facilidade de acesso às multimídias dos tempos pós-modernos. Tudo isso traz ao educador cristão uma necessidade de preparo cada vez maior e direta ou indiretamente os membros das igrejas exigem de seus discipuladores a capacitação inerente ao exercício do cargo.
5. A compreensão das línguas bíblicas como instrumento homilético na pregação do Evangelho de Cristo
Os pregadores expositivos estão em extinção, aliás, os pregadores estão em extinção. O que temos são contadores de histórias (verdadeiros Forest Gumps da fé), curandeiros, brincalhões, contadores de piadas evangélicas, marqueteiros da fé, vendedores de ilusões, místicos da música, da pregação, um verdadeiro espetáculo da fé.
O padrão de pregações está em um nível tão baixo que quando alguém usa um texto qualquer e prega um sermão tópico, muitos já se sente alimentado, pois já é um “miojo” com uma lata de sardinha. Não sustenta, mas pelo menos já engana o estomago. O profeta Oseias nos conta sobre a destruição do povo por causa da falta de conhecimento (Os 4.6). A ênfase desse texto sempre é dada na questão do povo não conhecer, mas no contexto da passagem a ênfase é sobre o sacerdote que rejeita o conhecimento, visto que os sacerdotes e levitas eram responsáveis pelo ensino da Palavra do Senhor ao povo; na época de Oseias o ministério sacerdotal estava corrompido pela corrupção moral e espiritual[11], assim, pelo fato do sacerdote rejeitar o conhecimento isso gerava um povo sem conhecimento bíblico, o texto original deixa claro que o resultado da falta de conhecimento do povo é a rejeição da busca de conhecimento pelo sacerdote.
A importância do estudo das línguas originais não é uma forma de demonstração de conhecimento, nem mais uma ferramenta para insuflar o ego; estudamos as línguas originais para compreender a mensagem original do autor sagrado, para saber como os ouvintes daquela mensagem a entenderam e quais as aplicações dessa mensagem sagrada para nossa vida prática hoje.
O maior benefício da pregação expositiva com base nos textos originais é o crescimento espiritual do pregador e da igreja na qual ele exerce seu ministério, uma igreja bem alimentada tem menos problemas em todas as áreas; uma igreja “raquítica” de Bíblia inventa problemas.
6. A compreensão das línguas bíblicas como instrumento de reflexão teológica
Em vias de normalidade lemos reflexões teológicas e material de qualidade em todas as áreas do conhecimento com cerca de 5 anos de atraso e é muito simples fazer essa verificação, basta pegar qualquer livro de Teologia ou outra área do conhecimento e verificar o ano de copyright do original e o ano de publicação em português. Graças a Deus esse atraso tem diminuído em alguns casos para 2 ou 3 anos.
Por que a realidade é essa? São várias as respostas. Primeiro, teólogos americanos, ingleses e alemães são muito melhor preparados nas escolas teológicas de alta qualidade e nível universitário elevados. Segundo, é possível ser teólogo nos Estados Unidos e na Alemanha e sobreviver com a renda da profissão, enquanto no Brasil poucos são os teólogos que têm o privilégio de poderem se dedicar em tempo integral a produzir material acadêmico, muitas vezes temos que ser professores, escritores, pastores e juntando todos os salários conseguimos só pagar as contas rotineiras.[12]
A compreensão das línguas originais, entra aqui como um subsídio eficaz na produção de material teológico de qualidade, com profundidade reflexiva. Caso não formemos conhecedores das línguas originais, seremos cada vez mais dependentes de material estrangeiro e termos uma reflexão teológica de segunda ou terceira mão.
7. Mais nobres que os demais – o caso bereano e o filtro teológico
Ora, estes de Bereia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim. (At 17.11)
A mediocridade faz parte da mentalidade pós-moderna, em todas as áreas, o amor ao dinheiro tornou o homem contemporâneo refém do pragmatismo mercadológico, produtor de resultados instantâneos e lucrativos. Queremos clicar e ver as coisas acontecer, aliás, não queremos nem mais clicar, a moda agora é o touch screen, ou seja, tocar na tela, pois o mouse demora muito. Os novos videogames percebem nosso movimento e repetem nos jogos. A tecnologia de comandos de voz já é presente e será cada vez mais. Não precisaremos mais digitar, programas já entendem o que falamos e transportam para o editor de textos. Não pesquisamos mais em livros, existe o google para pesquisar para nós, e nos limitamos aos 10 primeiros links.
Precisamos ser e formar os formadores de opinião que sejam espécies de filtros teológicos para uma igreja cheia de informação, mas vazia de conteúdo moral e espiritual. A compreensão das línguas bíblicas permite que compreendamos o texto bíblico e sejamos os bereanos da era pós-moderna.
Conclusão
Fique claro que não esperamos que todos os líderes, pastores, obreiros e professores de nossas igrejas sejam profundos conhecedores das línguas originais da Bíblia (embora seja evidente que precisaremos que alguns com vocação possam ser). Esperamos sim que eles tenham conhecimento suficiente para: 1) Compreenderem corretamente a mensagem divina; 2) Serem ensinadores profundos da mensagem divina; 3) Serem pregadores produtores de alimento saudável para a Igreja de Cristo; 4) Serem apologistas eficazes contra os argumentos das seitas; 5) Produzir reflexão teológica de qualidade; 6) Serem mais nobre que os demais.
[1] Adaptado de um aritigo que publiquei no meu site: https://emunaheditora.com.br/2022/03/01/a-importancia-do-estudo-das-linguas-originais-da-biblia/, aceso em 07 jun. 2023.
[2] Pastor da Igreja Batista do Vale, São Paulo, SP. Pós-doutorando no Departamento de Línguas Orientais, USP. Doutor e Mestre em Estudo Judaicos, USP. Professor no Seminário Batista Nacional Enéas Tognini das disciplinas: Grego, Hebraico, Aramaico.
[3] Claro que na acepção de Lutero o aramaico fazia parte das escrituras hebraicas.
[4] Trecho traduzido de http://faculty.tfc.edu/juncker/GRK453LutherOnLanguages.pdf, acesso em 29.07.2010.
[5] Num mundo com tantos recursos e facilidades de estudo das línguas originais como o nosso, essa é uma desculpa lamentável de muitos que darão conta de sua preguiça e desleixo diante do Senhor.
[6] Geralmente os adeptos da seita andam com um livro intitulado Raciocínio à base das Escrituras em que encontram várias palavras em grego e hebraico analisadas conforme as suas doutrinas e usam como ferramenta no debate de porta a porta.
[7] Excelente trabalho de contestação à versão da bíblia dos TJ encontra-se em: SILVA, Esequias Soares da. Testemunhas de Jeová: A Inserção de suas Crenças no Texto da Tradução do Novo Munda das Escrituras Sagradas. Tese de Mestrado apresentada na Universidade Mckenzie, 2007, disponível em:
http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_actio n=&co_obra=110475. Obs.: para acessar é necessário fazer um cadastro no site. Acesso em: 01.08.2009.
[8] Em SILVA, Severino Celestino da. Analisando as traduções bíblicas: refletindo a essência da mensagem bíblica. 4.ª Ed. João Pessoa: Ideia, 2002, o autor espírita questiona capítulo a capítulo as traduções da Bíblia, citando o texto hebraico, fazendo transliteração, tradução literal e defendendo a doutrina espírita e a reencarnação.
[9] Não há como eliminar 100% os problemas de interpretação por causa das nossas limitações humanas, alguns têm a ilusão que se souberem o grego, o hebraico e aramaico terão a resolução de todos os problemas de interpretação da Bíblia.
[10] Por que estudar as línguas bíblicas originais? in: http://teo-filo-lit-wm.blogspot.com/2009/07/porque-estudar-as-linguas-biblicas.html. Acesso em 01 out. 2010.
[11] Qualquer semelhança com os nossos dias não é mera coincidência
[12] É possível sobreviver como pastor, dependendo da visão da igreja, mas não sobra tempo para produção teológica, a igreja não deixa; como professor de teologia é impossível sobreviver, pois só temos cursos noturnos e os honorários são irrisórios; como escritor é outra façanha, as editoras não publicam autores brasileiros, raras exceções, quando publicam pagam cerca de 5% do valor do preço de capa, o que só daria para sobreviver se conseguirmos vender alguns milhares de livros, tarefa hercúlea, já que o brasileiro lê pouco. Dessa forma, um teólogo brasileiro tem que ter mais uma profissão para ter um salário digno de um ser humano. Falo de experiência própria, sou pastor, professor, escritor e tive que fazer um MBA em Tecnologia da Informação e Internet para ter uma profissão secular. Ou seja, o currículo de um teólogo brasileiro é o mais esdrúxulo possível.






