
A Teologia Bíblica como prioridade nos estudos teológicos
Por José Ribeiro Neto[1]
http://lattes.cnpq.br/4869632914439114
Desde o nascimento do Protestantismo em 31 de outubro de 1517, simbolizado pela afixação das 95 teses de Lutero à porta do Castelo de Wittenberg (Schlosskirche), na Alemanha, a tentativa da sistematização da Teologia Cristã em uma abordagem Protestante ortodoxa tem crescido exponencialmente na multiplicação de livros denominados “Teologia Sistemática”. Inicialmente, essa sistematização era feita por meio de “Artigos de Fé”, “Catecismos” e “Confissões de Fé”, exemplo desse último tipo é a Confissão de Augsburgo (1530), escrita por Filipe Melanchthon (1497-1560) para fundamentar as doutrinas da Igreja Luterana. Da mesma forma, João Calvino (1509-1564), ao escrever suas Institutio Christianae Religionis (Instituta da Religião Cristã), em suas edições definitivas em latim em 1559 e em francês em 1560[2], procurava, tanto uma sistematização do pensamento cristão protestante, quanto uma defesa desse mesmo pensamento contra a abordagem da igreja católica romana.
A partir dessa base dos Reformadores, multiplicaram-se as tentativas de produzir teologias sistematizadas do pensamento cristão protestante. Essas, contudo, cada vez mais, se tornar carregadas de pensamentos seculares, principalmente de cunho filosófico grego. Nada diferente ao que já tinha acontecido com a doutrina cristã de cunho ocidental com a presença neoplatônica até o século IX, e, posteriormente, com a aculturação dessa teologia com o pensamento aristotélico no movimento denominado Escolástica (sécs. IX-XVI).
Com as múltiplas presenças, estranhas ao pensamento bíblico, a Teologia Sistemática acabou por se tornar uma espécie de Filosofia da Teologia, no lugar de ser fruto da reflexão e exegese bíblica. Não demorou para surgirem movimentos justificadamente contrários a um dogmatismo teológico averso à própria Bíblia; dogmatismo esse mais preocupado em encontrar textos prova de forma tautológica e filosófica, em uma confessionalidade em certos momentos até doentio e sectária. Dentre esses movimentos, destaca-se de forma positiva, o Pietismo (sécs. XVII-XVIII), que, de acordo com González:
Os dirigentes desse novo despertar protestavam contra a rigidez da velha ortodoxia protestante e, ainda que esses mesmos em geral fossem teólogos devidamente treinados, tendiam a priorizar em meio às fórmulas teológicas a importância da vida cristã prática. ( 2010. p. 218).
Embora havendo entre os pietistas muitos eruditos coerentes, o movimento teve certas ramificações mais místicas, que acabaram por estigmatizar o grupo em um pacote geral, como se todos fossem dissimulados e heréticos. De forma negativa, surgiram também os movimentos de Teologia Liberal e Neo-ortodoxia, encontrado os pontos fracos óbvios de uma ortodoxia academicamente desonesta.
Em meio a esse caldo de questionamento ao dogmatismo, surge um outro de grande importância para o nosso tema, denominado de Teologia Bíblica. Uma tentativa de libertar as Escrituras das amarras dogmáticas de uma confessionalidade à beira do declínio. A Teologia Bíblica, teve seu destaque inicial com os estudos de Teologia do Antigo Testamento em 1949, considerado como o ano da “era de ouro” da Teologia do Antigo Testamento, por causa das obras de Otto Baab e Th. C. Vriezen do lado protestante, e, do ponto de vista católico pelos autores Paul Heinisch (1950), e Paul van Imschoot, em 1954 e 1956 (Smith, 2005, p. 46-47). Esse arranque inicial possibilitou o aprofundamento dos estudos bíblicos em um enfoque menos dogmático ou confessional, para uma abordagem bíblica mais interna e exegética.
Dentre os temas que deveriam ser centrais ao estudo da teologia bíblica, segundo Childs, estavam:
1) a redescoberta da dimensão teológica (o objetivo era penetrar no coração da Bíblia para recuperar sua mensagem e mistério, perdidos pela geração anterior); 2) a unidade de toda a Bíblia; 3) a ideia de que a revelação é histórica; 4) o caráter distinto do pensamento bíblico (hebraico); e 5) a singularidade da fé bíblica diante de outras religiões. (González et al., 2010. p. 218).
Dedutivamente, pode-se perceber que as abordagens acima procuravam encontrar um novo enfoque aos estudos do AT, libertando-se de uma sistematização pressuposta pelo dogmatismo que a aprisionavam na camisa de força da tradição interpretativa das confissões. O movimento inicial da Teologia Bíblica, infelizmente não durou muito tempo, justamente por causa do surgimento da Teologia Liberal e da Neo-ortodoxia, principalmente entre os Batistas (Langdon Gilkey, 1919–2004, americano, professor); Presbiterianos (James Barr, 1924–2006, escocês, pastor; nascido em Glasgow) e Luteranos (Bertil Albrektson (1932–2021, sueco, professor); teólogos e movimentos que questionavam, “(...) a revelação, a história e a singularidade da fé israelita” (Smith., 2005. p. 48).
O apagamento dos estudos bíblicos por uma abordagem crítica destrutiva acabou por obscurecer a importância do enfoque da Teologia Bíblica para uma bifurcação que a deixou entre caminhos, ambos problemáticos, de um lado: 1) a manutenção de uma sistematização confessional tendenciosa, incapaz de perceber suas contradições internas e externas; e, de outro: 2) um liberalismo academicamente desonesto, impondo às Escrituras categorias anacrônicas, estranhas à terminologia interna sócio-histórico-cultural e à linguística do ambiente semítico antigo.
Carson, em um pequeno livro, mas de preciosa valia, aborda o debate entre Teologia Bíblica e Sistemática no âmbito geral, porém, tendo em perspectiva os estudos neotestamentários (Carson, 2008). No prefácio da obra Sayão, nos ajuda a entender o conceito de Teologia Bíblica, quando explica:
QUANDO OUVIMOS FALAR DE TEOLOGIA BÍBLICA nem sempre fica claro a que exatamente essa expressão se refere. Alguns entendem que a expressão diz respeito à teologia de acordo com a Bíblia, em oposição a uma teologia herética. Outros imaginam que a referência é a uma teologia que está baseada nas Escrituras. Nenhuma das sugestões é correta. A Teologia Bíblica define-se basicamente a partir de sua distinção em relação à Teologia Sistemática e à História das Religiões. A proposta fundamental da Teologia Bíblica é construir uma teologia a partir das Escrituras, de modo indutivo, sem depender das categorias definidas pela Sistemática ou pela Dogmática. (Sayão, in: Carson, 2008, p. 7).
Carson entende a importância de cada ramo da Teologia e suas respectivas concentrações, porém, destaca com propriedade a distinção entre esses ramos e coloca a Teologia Bíblica como um ramo que procura escapar das categorias de outras disciplinas, ou seja, a Teologia Bíblica precisa encontrar os conceitos, definições, temas e abordagens na revelação interna, escriturística e canônica; em seus próprios termos, sem dependência de pressupostos externos. Carson, contudo, não é inocente ao abordar o tema, entende muito bem que é praticamente impossível alguém ir direto às Escrituras sem nenhum pressuposto; o que ele afirma, contudo, é que o teólogo deve ter em mente que tem de “(...) reconhecer que o controle final se acha na Bíblia e apenas na Bíblia...” (Carson, 2008, p. 70).
Em análise semelhante Alexander et al. destacam a prioridade da Teologia Bíblica, sem desprezar as relações com as outras disciplinas teológicas:
(...) Pelo fato de a teologia bíblica ser fruto da exegese de textos de vários blocos literários bíblicos, ela tem prioridade lógica sobre a sistemática e outros tipos especializados do desenvolvimento da teologia. Entretanto, a reciprocidade das disciplinas pode ser observada em nossa maneira de realizar a tarefa exegética com pressuposições dogmáticas sobre a natureza e autoridade da Bíblia. Além disso, a história da teologia e da interpretação bíblica mostra que nos envolvemos em nossa tarefa como teólogos bíblicos a partir da tradição viva da igreja cristã. (2009, p. 3).
Reconhecendo que chegamos aos textos bíblicos com nossos pressupostos sistemáticos, confessionais, dogmáticos e históricos; para que serve a Teologia Bíblica, então, é possível ser ela liberta da influência e presença das outras disciplinas? A resposta é sim. Ainda que possamos chegar às Escrituras com toda essa carga, que é válida e importante, podemos voltar delas transformados em nossas convicções, nos humilhando diante da exegese que nos confronta e nos muda, em caráter e pensamento. Assim, a Teologia Bíblica faz bem em estar na bifurcação, pois ao escolher entre os múltiplos caminhos e disciplinas teológicas, o estudante terá que antes olhar para ela, a fim de decidir, depois de assolado pela revelação bíblica, qual trilha seguir nos estudos teológicos; e como transformar as outras disciplinas por meio da revelação e inspiração do Espírito Santo no texto sagrado.
O caminho pedregoso da Teologia Bíblica tem sido aplainado por um reavivamento dos estudos exegéticos feito por autores ortodoxos de várias linhas confessionais, de modo nenhum abandonando ou minimizando a importância da Sistemática, porém, destacando a centralidade da Teologia Bíblica como unificadora da teologia cristã ortodoxa, tendo o cânon bíblico como um todo supervisionado pela inspiração do Espírito santo e única regra de fé e prática da vida cristã bíblica.
Com o propósito de aperfeiçoar os novos teólogos bíblicos criamos o curso: Pós-graduação Lato Sensu em Teologia Bíblica, em parceria com o Seminário Evangélico Teológico do Brasil da convenção Batista Nacional, a Emunah Editora e o apoio acadêmico para o reconhecimento pelo MEC do Grupo Cogna Educação S.A., a maior empresa de serviços educacionais do Brasil, atuando da educação básica ao ensino superior, incluindo idiomas, editoras (Ática, Saraiva), sistemas de ensino e plataformas digitais, com marcas conhecidas como Anhanguera, Unopar, Pitágoras, Unic, Uniderp e Unime.
Para conhecer mais sobre o curso e matricular-se, acesse o link:
https://emunaheditora.com.br/pos-teologia
Bibliografia
ALEXANDER; Desmond T.; ROSNER, Brian S. Novo Dicionário de Teologia Bíblica. São Paulo: Editora Vida, 2009.
ALTER, Robert; KERMODE, Frank. Guia literário da Bíblia. São Paulo: Fundação Editora da Unesp, 1997.
BOMAN, Thorleif. Hebrew Thought Compared with Greek. New York: W.W. Norton & Campany, Inc., 1970.
BRUCE, F. F. Merece confiança o Novo Testamento? São Paulo: Vida Nova, 1990.
____________ . O cânon das escrituras. São Paulo: Hagnos, 2011.
CARSON, D. A. Teologia Bíblica ou Sistemática? São Paulo: Vida Nova, 2008.
CARSON, D. A.; MOO, Douglas; MORRIS, Leon. Introdução ao Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1997.
CRABTREE, A. R. Teologia do Velho Testamento. Rio de Janeiro: Juerp, 1986.
DEISSMANN, Adolf. Light from the Acient East: The New Testament Illustrated by Recently Discovered Texts of The Graeco-Roman World. 4a. ed. New York: George H. Doran Company, 1927.
DOUGLAS, J. D. (ORG.). O Novo Dicionário da Bíblia. 2.ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2001.
ELLIGER, K.; RUDOLPH, W. Biblia Hebraica Stuttgartensia. 4 ed. Stuttgart: Deutsche Bibelgesellschaft, 1990. O prefácio foi traduzido ao português pelo Prof. Edson de Faria Francisco.
FRANCISCO, E.F. Manual da Bíblia Hebraica: Uma Introdução ao Texto Massorético – Guia Introdutório para a Bíblia Hebraica Stuttgartensia 3ª ed. São Paulo: Vida Nova, 2008.
GOLDINGAY, John. Teologia Bíblica. Campinas, SP: Thomas Nelson, 2020.
GONZÁLEZ, J. L.; ORLANDI, C. C. História do Movimento Missionário. Tradução: Silvana Perrella Brito. 1a edição ed. São Paulo: Hagnos, 2010.
GUNDRY, Robert H. Panorama do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2008.
HAWTHORNE, Gerald F.; MARTIN, Ralph P.; REID, Daniel G. Dicionário de Paulo e suas cartas. São Paulo: Vida Nova / Paulus / Edições Loyola, 1997.
KAISER, Walter C. Jr. Plano da promessa de Deus. São Paulo: Vida Nova, 2011.
KELLER, Timothy. Justiça generosa: a graça de Deus e a justiça social. São Paulo: Vida Nova, 2013.
KÖSTENBERGER, Andreas J.; PATTERSON, Richard D. Convite à interpretação bíblica: a tríade hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2015.
LONGMAN III, T. Lendo a Bíblia com o coração e a mente. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
MCGRATH, A. E. Teologia Sistemática, Histórica e Filosófica. São Paulo: Shedd, 2005.
MERRILL, Eugene H. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Shedd, 2009.
MULLINS, Edgar Young. A religião cristã na sua expressão doutrinária. trad. Cláudio J. A. Rodrigues. São Paulo: Hagnos, 2005.
NAVEH, Joseph. Early History of the Alphabet: an introduction to west semitic epigraphy and paleography. Jersualém: The Magnes Press/T97he Hebrew University, 1997.
OSBORNE, Grant R. A espiral hermenêutica: uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009.
ROBERTSON, A. T. Grammar of the Greek New Testament in the Light of Historical Research. London: Cambridge at The University Press, 1919.
ROBERTSON, O. Palmer. O Cristo dos pactos. São Paulo: Cultura Cristã, 2002.
RYRIE, Charles Caldwell. Teologia básica: um guia sistemático popular para entender a verdade bíblica, trad. Jarbas Aragão. Edição atualizada. São Paulo: Mundo Cristão, 2012.b
SICRE, José Luís. Com os pobres da terra: a justiça social nos profetas de Israel. São Paulo: Academia Cristã, 2015.
SMITH, Ralph. Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2005.
STERN, David H. Manifesto judeu messiânico. Edições Comunidade Emanuel. RJ. 1989.
TENNEY, MERRILL C. O Novo Testamento sua origem e análise. São Paulo: Vida Nova, 1984.
TOGNINI, Enéas. Geografia da terra santa e das terras bíblicas. São Paulo: Hagnos, 2010.
__________________. Período Interbíblico. São Paulo: Hagnos, 1992.
TOGNINI, Enéas; BENTES, João Marques. Janelas para o Novo Testamento. São Paulo: Hagnos, 2009.
VAN GRONINGEN, Gerard. Revelação messiânica no AT: a origem divina do conceito messiânico e o seu desdobramento progressivo. São Paulo: Cultura Cristã, 1995.
VOS, G. Teologia Bíblica: Antigo e Novo Testamentos. Tradução: Alberto Almeida De Paula. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2010.
WALTKE, Bruce K.; YU, Charles. Uma teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2016.
WRIGHT, Christopher J. H. Povo, terra e Deus: a relevância da ética do Antigo Testamento para a sociedade de hoje. São Paulo: ABU, 1991.
ZUCK, Roy B. (org.). Teologia do Antigo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.
[1] Diretor Geral do Seminário Teológico Evangélico do Brasil da Convenção Batista Nacional. Pós-doutorado no Departamento de Letras Orientais, USP. Doutor e Mestre em Estudos Judaicos e Árabes, USP. Professor de Hebraico, Grego, Exegese Bíblica do AT e NT no Seminário Teológico Batista Nacional Enéas Tognini. Professor de Grego, Hebraico, Exegese do AT e NT, Análise de Romanos, Cosmovisão Cristã e Apologética no Seminário do Betel Brasileiro. Professor na Pós-graduação em História de Israel com ênfase no mundo bíblico na UniAberta.
[2] A primeira edição foi escrita em latim em 1536, em Basilea, Suiça; a versão francesa em 1560.






